Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

Restos não são uma política saudável



Surgiu uma ideia, que aliás não é nova, de dar as sobras de comida aos mais necessitados. A ideia não é nova porque já foi experimentada e com pouco sucesso: um restaurante que tenha imensas sobras é um restaurante falido a curto prazo. Pelo que esta ideia é uma mistificação. Em Oeiras alguns restaurantes aderiram a esta ideia, ressalvando que poderiam oferecer um número X de refeições mas preparadas propositadamente para o efeito. Os proprietários referiram na altura, que não tinham sobras porque isso é gerir mal um restaurante.

Para além deste pequeno pormenor que os propagandistas do regime esquecem sempre de referir, temos a ideologia da caridadezinha sempre presente.
Os mesmos que exploram as pessoas e são responsáveis por salários de miséria e redução dos rendimentos das famílias, são aqueles que ao fim-de-semana recolhem as sobras das suas fortunas e decidem distribuir umas migalhinhas pelos pobres.
Nunca distribuem o suficiente para estes deixarem de ser pobres atenção, isso daria cabo do seu desporto de fim de semana e acabaria com a necessidade dos mais pobres aceitarem trabalhar a qualquer custo e sob quaisquer condições nas suas empresas.
A caridade é uma indústria nos dias de hoje. Não faltam incentivos ao consumo de produtos que contribuem com 1 cêntimo para uma causa qualquer, num país distante de nós. Sentimos que ao comprar estamos a fazer o bem... a contribuir para algo mais que o bolso de quem produz o que compramos.

Zizek chama-lhe o Capitalismo Cultural e explica-o bem aqui.

Eu estou contra esta ideia de dar os restos aos mais necessitados. Como explicamos que na sociedade em que vivemos há anúncios de comida para cão onde é dito que "restos não são uma alimentação saudável" e ao mesmo tempo vem meio mundo defender que para os pobres já serve? 

Nem do ponto de vista da Igreja é defensável: as escrituras dizem claramente para dar o que temos, tudo o que temos e não só o que nos sobra e não nos faz falta.
Sou a favor que hajam salários dignos, condições de vida dignas e criação das condições socias para acabar com a miséria. Sou totalmente contra estas soluções nojentas de propaganda mesquinha que pretendem menorizar as pessoas e forçá-las a uma vida de joelhos, de subserviência e de sujeição.
Isto é ideologia, formatação social para a criação de um modelo que remonta à altura em que o rei vinha passear de carruagem e atirarava comida aos pobres.
O governo está a atirar milhares de pessoas para a pobreza com a anuência da oposição violenta, não é darem umas migalhas às pessoas que vai mudar isso. Não roubem o salário aos portugueses, não lhes roubem os subsídios a que têm direito e para os quais descontaram e ponham a vossa caridadezinha lá onde o sol não brilha.

As pessoas agradecem.

 

publicado por Francisco da Silva às 13:49
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2 comentários:
De Ni a 28 de Abril de 2012 às 11:48
A existencia de pobres dá imenso jeito para se poder praticar boas acções. O governo todos os dias cria novos pobres, e a AR decidiu fazer alguma coisa quanto ao assunto... segundo os jornais fornece 12 a 24 refeições de RESTOS às Oficinas de São José.
De Filipe Costa a 23 de Setembro de 2012 às 22:21
Boa noite Francisco,

Sendo um facto que a miséria sempre existiu, existe e continuará a existir, e não sendo esse o ponto que está aqui a ser decidido, pergunto:

Será preferível e mais digno ver pessoas diariamente a vasculharem os caixotes do lixo?

Num mundo ideal todos teriam uma boa qualidade de vida.
No nosso mundo real, pelo menos todos deveriam ter alimentação e alojamento com alguma dignidade. Penso que aqui "apenas" se está a melhorar a segunda parte.

Concordo consigo que muitas destas campanhas têm objetivos menos próprios, mas na essência, não será preferível evitar que toneladas de comida sejam incineradas todos os dias enquanto parte da população passa fome?

Cumprimentos,
Filipe Costa

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