Quinta-feira, 2 de Junho de 2011

Nacional-Porreirismo

A questão da imagem dos políticos dos partidos PS, PSD e CDS nesta campanha tem sido por um lado uma comédia e por outro uma farsa. Nunca uma campanha foi tão recheada de "bloopers": Catroga e Nobre do lado de Passos Coelho, as tiradas habituais de Lello e Santos Silva do lado de Sócrates e ainda os bonés de Paulo Portas.

 

“The wager of Berlusconi´s indecent vulgarities is, of course, that thepeople will identify with him insofar as he embodies or enacts the mythical image of the average Italian: I´m one of you, a little bit corrupt, in trouble with the law, I fall out with my wife because I´m attracted by other women...”¹

 

A ideia, ao contrário do que se possa pensar, não é perder as eleições mas sim criar uma ilusão de identificação com o português médio, com os seus pequenos pecados e sacanices, com a sua linguagem e costumes.

Também encontramos cabeças de lista que encarnam este espírito Berlusconi: Ricardo Rodrigues nos Açores e Alberto João Jardim na Madeira, sendo que este último um trend setter no que ao populismo se refere.

 

E a farsa onde é que aparece?

 

Pois bem estes "imprevistos" são maquiavelicamente pensados e planeados de modo a passar uma imagem de que os candidatos são pessoas do povo, genuínas e imperfeitas como todos nós.

Ao contrário do que pressupõe o pensamento clássico, acaba-se com a elevação e com a necessidade de elevação e honorabilidade que a representação de um cargo público exige.

Assim, ao confundir a esfera pública com a esfera privada do candidato, legitima-se posteriormente que o governo faça o mesmo, actuando em prol de interesses que não o de todos os cidadãos. É uma maneira de fazer crer que é o povo quem mais ordena e não as elites que financiam todo este circo magnífico através de envelopes entregues em mão pelas secções locais ao “querido líder” quando este as visita em campanha.

Ao desvalorizarmos a inteligência destes políticos devido às suas “gaffes” estamos a fazer o seu jogo e quando nos rimos desta campanha é de todo o sistema democrático que nos estamos a rir; no fundo estamos a rir de nós próprios.

Berlusconi controla os Media públicos e privados, define o que é Justiça conforme o que lhe é favorável e governa para si e para os seus. No entanto aparece como o homem do povo que está governar contra os poderosos afinal de contas um homem das elites não se comporta assim...

Sob esta capa do “gajo porreiro” tem aplicado políticas xenófobas, perseguido adversários políticos, limitado a liberdade de opinião e informação, etc.

No fundo ele nem é mau tipo e assim anula-se a participação de quem poderá representar realmente os cidadãos e não grupos de interesse ou interesses pessoais.

 

"This new kind of president mixes (what appear to be) spontaneously naive outbursts with the most ruthless manipulation"²

 

Esta manipulação serve para que o governo continue na mão da mesma classe apesar do disfarce de "homens do povo” que veste. Assim vemos partidos travestidos de defensores das classes baixas, quando na realidade representam as classes superiores e as suas políticas.

São frentes de massa dos mais diversos lobbies que se movem dissimulados nestes líderes, por isso estas eleições são um verdadeiro teste à democracia portuguesa.

Ver os barões do PSD escondidos atrás do "africanista de Massamá", Paulo Portas nas feiras a beijar os mesmos que segrega e José Sócrates a prometer defender os portugueses depois de tudo o que fez, são as melhores imagens do que é o paradigma pós-moderno da política: a deformação da realidade e dos factos sociais.

 

Em cena até ao final da semana.

 

 


¹ ŽIŽEK Slavoj, First As Tragedy, Then As Farce, Verso, UK 2009, pg. 50

² op. cit. , pg. 49

publicado por Francisco da Silva às 00:13
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