Segunda-feira, 18 de Junho de 2012

Da Grécia, com amor

 

Ontem, foi dia de jogo grande na Grécia: ganhou a Nova Democracia, por meio a zero, mas ganhou. Ganhou a chantagem financeira, que pretende continuar a espremer a Grécia até à última gota. Ganhou o editorial do Financial Times, e outros tipos de chantagens e pressões, que foram exercidas sobre a opinião pública grega, ao longo destes últimos tempos. 

Ganhou o medo da população mais idosa, que ainda tem algo a perder, e por isso votou maioritariamente na Nova Democracia. Ganhou Samaras, aquele em quem, há um ano, Merkel não acreditava na sua palavra, apesar de serem ambos membros do mesmo partido europeu. 

 

Quem perdeu? Perdeu a SYRIZA, ao ficar em segundo lugar, por meio a zero, mas perdeu. Perdeu a esperança de um presente diferente para a Grécia e para os gregos. Perderam os jovens, que na sua maioria votaram SYRIZA, perdeu Tsipras e a esquerda. Perdeu o pensamento diferente, fora do unanimismo generalizado. 

 

Há mais para além disto, muito mais. Senão, vejamos:

 

A europa toda tem, hoje, noção do que não existia há uns meses: uma alternativa. O tal "medo que o medo acabe" começa aqui, as pessoas já aceitam que não há só um caminho coisa que há um ano atrás não existia. Boa ou má? Ainda não se debruçaram o suficiente sobre ela, mas saber da sua existência, é meio caminho andado para o medo acabar. Olham para Tsipras como um louco? Ok, até podem olhar, mas respeitam-no e o seu nome é agora conhecido, desde o Cabo da Roca até Moscovo. Atravessou o atlântico, via entrevista do NYTimes, o seu nome andou nas bocas de todos, bem como o nome da SYRIZA e a ideia de "um outro caminho é possível".

 

Tentaram colar a extrema esquerda à extrema direita, como se fosse comparável uma política pelo fim da austeridade, com uma política de ódio, de um partido que inclui nas suas práticas militantes, o assassinato de imigrantes.

Tsipras saiu sempre por cima, mostrou ao mundo que os comunistas não são um grupo de velhos bolorentos, que se reúnem numa cave aos domingos, para comer criancinhas. Tsipras acreditou e as pessoas acreditaram com ele, levando a SYRIZA a um patamar de apoio, expresso em votos e mandatos, inigualável. Acredito, sinceramente, que a vitória teria tido um impacto benéfico para os cidadãos gregos, assim como aliviaria a pressão sobre o resto dos países intervencionados, com medo que algo de parecido se passasse. Acredito também que a Grécia não iria sair da zona euro: é o poder da Alemanha que está em causa, com a desagregação deste sistema monetário, Merkel e os alemães sabem-no.

 

Não acredito no entanto, que fosse a solução dos nossos problemas, como portugueses. Estivemos juntos, estamos juntos e estaremos juntos, na maratona contra esta europa, sem dúvida alguma. Agora, se quisermos mudar a nossa realidade, não será por bandwagon. 

Há muitas diferenças a ter em conta, sendo para mim a maior, a consciência do que são estes empréstimos. 

Na Grécia, tal como em Espanha ou na Irlanda, as pessoas têm a noção clara que vivem pior, para salvar os bancos. Em Portugal, a estratégia foi melhor: a ideia que passou é que o empréstimo foi feito para o Zé Povinho pagar os copos que andou a beber fiado.

A SYRIZA teve um papel fundamental em desmistificar esta questão, em criar no gregos, consciência de classe. A própria frase de Tsipras, espelha esta ideia: "se ganharmos, vamos segunda-feira a Bruxelas renegociar". 

Com esta frase, ele explica sucintamente que isto não é uma questão de Alemanha vs. Grécia, ou vs. Portugal, Espanha e Irlanda. Trata-se de uma questão de uma parte da sociedade europeia, contra a outra, de gregos contra gregos, portugueses contra portugueses, e por aí fora.

 

Há dois tipos de países na zona euro: os intervencionados, e os por intervencionar. É preciso fazer crescer a consciência, que em cada país, são sempre os mesmos a pagar. Não há guerra entre Norte e Sul da Europa, mas sim, entre topo e base da pirâmide social, em cada país. 

Tsipras consegui isso, a SYRIZA conseguiu isso, ganharam onde a toda a esquerda tem falhado redondamente: na comunicação. 

Não se puseram com as desculpas habituais, que a comunicação social não ajuda, que o campo é inclinado... não. Cerraram os dentes, usaram as armas ao seu dispor e foram à guerra. Temos muito que aprender com eles em termos de comunicação, em vez de pensarmos que basta ganharem lá, que passados uns tempos ganhamos nós cá também. Mais uma vez, o avanço da história, está a ser feito pela guerra entre exploradores e explorados. Os fait-divers de luta de civilizações são apenas areia, para que tudo fique na mesma, é preciso manter os olhos na bola. 

 

Resumindo, tal como Portugal contra a Alemanha, o SYRIZA jogou bem mas perdeu. Agora, resta levantar a cabeça e dar o seu melhor nos próximos jogos, porque quando há trabalho feito, a vitória não tarda a aparecer. 

 

Deixo-vos uma citação de memória, de um velho camarada, comunista daqueles que metem medo:

 

"Há por aí uns armados em Che Guevara, que dizem que querem fazer a revolução... mudar isto tudo, fazer coisas bonitas. Lembrem-se que o Che não andava por aí a dar palestras e conferências enquanto mudava o mundo, não andava na televisão a dizer: "olhem para mim que estou a mudar o mundo". Querem fazer coisas bonitas camaradas? Querem mudar o mundo? Trabalhem para isso porra! Quando acabarem o vosso trabalho, aí sim, olhem para trás e vão ver que fizeram coisas bonitas, vão ver que mudaram o mundo."

 

 

publicado por Francisco da Silva às 22:04
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