Terça-feira, 26 de Junho de 2012

A esquerda, livre de comunistas

Passos Coelho disse hoje, a propósito da moção de censura do PCP, o seguinte:

 

"Trata-se, portanto, mais do que uma moção de censura ao Governo,  de uma moção de censura ao mundo, de uma moção de censura à realidade"

 

 Dou por mim a concordar com o homem, coisa rara. Esta moção é sem qualquer dúvida uma moção de censura a esta realidade que Gaspar e os seus amigos estão a criar. O número recorde de desempregados merece censura. O aumento recorde do número de casais desempregados, que subiu mais de 81% no último ano, merece censura. 

Os cortes nos subsídios de férias e de Natal, nas férias e nos feriados, a facilitação dos despedimentos, o desmantelamento do serviço nacional de saúde, o fim da escola pública, os cortes na bolsas... enfim, há um sem número de razões que justificam uma censura a este governo.

Aliás, Pedro Silva Pereira no seu discurso de hoje no parlamento, enumerou bem diversas razões que justificavam a apresentação desta moção. No entanto, todas essas razões, serviram apenas para justificar mais uma abstenção violenta. 

 

O PS perdeu hoje uma excelente hipótese de promover uma coligação de esquerda, contra esta política devastadora do governo PSD/CDS. Ouço vezes sem conta dirigentes do PS falarem da impossibilidade de coligações à esquerda, que os partidos não estão disponíveis para se juntarem ao PS. Leio também outros tantos da esquerda livre, afirmarem o mesmo... No entanto, quando o PS tem essa oportunidade o que é que faz? Refugia-se no colo da direita. Claro, que nem uma linha virá escrita sobre sectarismo da parte dos socialistas, nem uma voz virá clamar contra as constantes posições políticas do PS, que indo muitas vezes contra o que é o sentimento geral da sua base, dos seus eleitores e militantes, prefere juntar-se à direita.

 

Assim, infelizmente, perde-se aquele que poderia ser o maior partido da oposição. Perde-se mais uma oportunidade de a esquerda se unir, sob a justificação sectária que "o PCP apresentou uma moção de censura ao PS, por isso não votamos favoravelmente a deles". Claro que debaixo dessa justificação, esconde-se um partido ideologicamente à deriva. Um partido que não só não tem homem do leme, como nem sequer tem leme. 

Os inúmeros votos que o PS conquistou mereciam mais respeito. As pessoas que votaram PS, mereciam mais que ter eleito uma bancada que nas questões essenciais abstém-se. Um partido cuja linha política é o não comprometimento, não é um partido. Os portugueses não mandataram os deputados do PS para serem figurantes neste filme realizado e produzido pelo PSD e CDS. 

 

Quando o maior partido da oposição está no governo, só significa que nós deste lado vamos ter de correr mais, trabalhar o dobro e suar o triplo. Nada que não se faça, já estamos habituados. Enquanto o PS não se resolver internamente, vai continuar a somar abstenções atrás de abstenções. Uns meses antes das eleições, irão representar de novo o papel de oposição e dizer que os do PSD são todos uns malandros... é uma estratégia que tem funcionado, mas as pessoas começam a ficar fartas. A começar pelos próprios militantes socialistas que olham para o seu partido entretido em guerras internas de controle de estruturas dirigentes, como um partido inútil na assembleia da república.

Seguro está a estender uma passadeira vermelha para o senhor que se segue, nem sequer vai ser preciso tirar-lhe o tapete, ele cede-o de bom grado. Tal como cedeu o seu papel de líder do maior partido da oposição, que está aí para quem o quiser interpretar. 

A direita ter um aliado como o PS no parlamento é perigoso: dá-lhes toda a liberdade para aplicarem na totalidade as políticas este processo reaccionário em curso. 

 

O PCP fez política hoje, quanto mais não seja, merece ver esse mérito reconhecido. Já tinha saudades de ver fazer política no parlamento. A política de corredores, de mesas de restaurante, de sacristia ou maçonaria já enjoa... 



publicado por Francisco da Silva às 01:48
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1 comentário:
De Paulo a 6 de Julho de 2012 às 15:02
Caro Francisco da Silva,

como cidadão deste país permita-me expressar a minha concordância com o objecto que leva a esta moção de censura, mas por outro lado discordar com a mesma pois ela é inócua no seu fim.

Poderá dizer-me que mesmo sabendo que a mesma não ia passar no Parlamento, alguém tinha que censurar as políticas desastrosas deste governo [será?] coligado.

A verdade, é que aos olhos do povo, cansado que está de ver políticos a fazer política, e não a governar [e para isso é que eles são mandatados por nós], esta moção parece a mais do mesmo, política, e não um acto de governação.

Bem sei que são 2 os partidos de governam, não mais, mas acho que é nesse paradigma errado que residem os problemas do país, e também reside a cada vez maior desconfiança dos portugueses em relação aos políticos, e o seu gradual afastamento de tudo o que tem a ver com ela.

Quando afirmo isso, não falo para o PCP em concreto, falo para todo o espectro de partidos com assento no parlamento. De políticas e ideologias já todos estamos cansados, o que nós pretendemos, são medidas reais e objectivas que ajudem o país a sobreviver, melhorar e prosperar.

Esta coisa de governo versus oposição é um contra-senso completo, o objectivo de elegermos deputados para a assembleia da República, é para EM CONJUNTO eles tomarem as melhores medidas possíveis para GOVERNAREM o país.

Imagine que transpúnhamos este modelo para as empresas do país, consegue imaginar qual o resultado? Pois, este é o resultado que temos no país, uma balbúrdia, desgovernado, empobrecido, a saque, sem justiça, sem saúde. Já é tempo dos deputados que juram fidelidade ao país, fazerem o seu trabalho que é governar.
Falar de ideologias de esquerda e direita, de capitalismo ou marxismo, deixem isso para os filósofos...

Por isso é que seria completamente a favor de parlamentos com número de deputados distribuído de forma equilibrada, poderia ser que de uma vez unissem as vozes para falar do país, e dos seus problemas, ao invés de falarem do curso do Relvas, e outros assuntos que ao Parlamento só interessam nos intervalos das discussões realmente importantes.
Estas maiorias só propiciam, favorecimentos, políticas desastrosas e distanciamento dos partidos com menor representatividade na assembleia, e por fim, desgoverno.

Ao escrever estas palavras, bem sei que elas serão talvez mais utópicas que a ideologia original do Comunismo, mas as acções dos nossos deputados deveriam ser EXCLUSIVAMENTE apresentar ideias/soluções para o bem do país.

A manutenção do discurso baseado em ideologias só levará os portugueses, como eu, a pensar: "todos diferentes, todos iguais - uma vez trilhado o caminho até chegarem ao poder, as políticas/decisões tendem a ir no mesmo sentido"...

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