Quarta-feira, 20 de Junho de 2012

Jornaleiros

 


 

O jornalismo, em geral, que me perdoem os poucos mas bons jornalistas que ainda sobrevivem, é absolutamente miserável. Isto não começou agora com o Relvas, isto já vem de longe. Muitos jornalistas vivem em perfeito conluio com os políticos. Aliás, é costume as grandes figuras da política dividirem os jornalistas entre "os seus" e os outros. Estes jornalistas "ganham-se" com almoços e jantares em sítios caros e na moda, pagos usualmente com despesas de representação do político, ou seja, com os nossos impostos. Também se conseguem recrutar muitos através da sua integração nas comitivas que vão ao "estrangeiro". Por último e menos divulgado, há o método de pagamento directo, em favores, informação e até dinheiro ou presentes. 

Temos, também, muitos jornalistas na lista de pagamentos de diversas agências de comunicação, embaixadas, marcas, clubes desportivos... enfim, tudo o que precisa de um espacinho na imprensa. Os métodos de pagamento não mudam, são os mesmos a que os políticos recorrem. 

Falo disto a propósito do caso Relvas, mas este não é um caso isolado. As pressões políticas sobre os jornalistas são constantes, aceites como práticas normais, tanto pelos agentes do poder como pelos próprios jornalistas. 

 

A pergunta que falta fazer é: porque é que os políticos pressionam os jornalistas?

Se a questão é simples de colocar, também a resposta é simples: porque funciona. 

 

Há sempre um jantar a cobrar, uma viagem, um emprego que se proporcionou... há sempre alguém que conhece não sei quem, que sabe que este jornalista andou a receber daqui, dali e de além. Um primo, um irmão, um colega de infância que trabalha nesta ou naquela redacção, enfim, vocês são portugueses como eu e sabem do que estou a falar. 

Criou-se uma cultura de cadeias de pequenos favores que, todos somados, depois dão frutos. E nesta situação grande parte da culpa é dos jornalistas que entram no jogo. 

 

Dá-me náuseas ouvir certos jornalistas e outros profissionais que vivem dentro deste círculo de favores, a falar sobre o quão corrupta é a política e os políticos. Escrevem como se fossem os D. Quixotes da ética, moral e bons costumes. No entanto, são os primeiros a entrar abertamente neste tipo de esquemas, abertamente e sem qualquer tipo de vergonha na cara, com um ar de que "eu posso porque sou impoluto". Ora estes senhores e estas senhoras têm muita culpa no estado a que o país chegou. Gostam de fazer capas com quanto gastam os nossos governantes. Não se recordam é do quanto é gasto a pagar os seus almoços e jantares, nos restaurantes mais caros do país. Não se recordam de quanto o estado gasta, quando paga as suas viagens e estadias nas comitivas que organiza. Não se lembram da corrupção, quando são eles que beneficiam, nem se lembram de falar em pressões, quando os pressionantes são os que na semana passada, lhes deram uma notícia que fez capa. 

Tal como a classe política, também a jornalística está entranhada de um cheiro a podre. Tanto de um lado, como do outro, há pessoas sérias, firmes, com carácter e bem intencionadas. Vão é sendo cada vez menos... o sistema sente-os como uma ameaça e rejeita-os, como se de um corpo estranho se tratasse.

 

Quero eu com isto desculpar o Relvas? Não... apenas explanar algumas das razões pelas quais o Relvas se vai mantendo: porque muita gente tem comido da sua mão. Pessoas sem qualquer carácter, asquerosamente mercenários, pois servem quem quer que seja, desde que lhes paguem o preço certo. São também eles responsáveis pelo estado a que chegámos. Assobiam para o lado, chamam corruptos e ladrões a todos e vão gozando o fruto do saque. 

 

Há quem lhes chame "Presstitutes", penso que é uma designação que lhes assenta bem. 

 

publicado por Francisco da Silva às 01:20
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